quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A crise das 37 semanas

Quando o casal engravida começa a incessante busca de informações sobre gestação e parto. No meio da avalanche de novas descobertas, surge a informação: a gestação pode durar de 37 até 42 semanas, quando o bebê já é considerado de termo, ou seja, fase em que o bebê teoricamente já está pronto para nascer (digo teoricamente pois a certeza de que o bebê está realmente pronto é o trabalho de parto. Se o trabalho de parto não ocorreu, o desenvolvimento do bebê dentro do útero possivelmente não se completou).
A partir daí a contagem regressiva pro nascimento começa.

Embora a maioria dos casais tenham a informação de que a gestação pode durar 42 semanas, eles sabem que depois de 37 semanas a qualquer hora o trabalho de parto pode dar as caras, e que, com ele, vem o (a) tão esperado (a) filho (a), então começa a contagem regressiva, que a maioria das vezes é feita tomando por base as 37 semanas. E a típica pressa do ser humano cria um ambiente de ansiedade nunca visto antes, que se inicia lá pelas 35 semanas de gestação. São os momentos finais!!! Ou não... E é aí que mora o perigo. 
Pra piorar o quadro de ansiedade, vem a curiosidade de parentes, vizinhos e amigos que, após 37 semanas de gestação, perguntam diariamente à mulher: "já nasceu?", lembrando sempre de dizer, logo após: "nossa, mas ele (a) não vai nascer não?!", "vai passar da hora...". 
Pronto. A angústia está instalada.

Vamos entender o que ela está sentido: ela sabe que o bebê pode nascer com 37 semanas. Então, semanas antes ela já começa a pensar em que dia o nascimento pode cair, que dia seria perfeito, o que fazer na hora, que cor pintar a unha pra tão esperada chegada e como será a sensação de ver o bebê pela primeira vez. Não que ela já não tenha pensado nisso tudo desde o resultado positivo, mas agora isso está mais perto, mais concreto e a ansiedade fica a mil! Ela dorme desejando que entre em trabalho de parto e acorda irritada por não ter sido naquela noite. Dá pra imaginar a sensação? Dá pra imaginar a ansiedade? E ai, eis que todo santo dia vem AQUELA pergunta: "e ai, já nasceu??" E ela usa a última gota de paciência que lhe resta pra responder, educadamente, que ainda não.

É perfeitamente compreensível o estímulo de quem pergunta, mas as pessoas precisam entender o outro lado da história também. É angustiante esperar o nascimento natural. E a angústia fica ainda maior toda vez que ela precisa responder à essa pergunta com uma negativa. 

E então, o que fazer? Esperar. Quando nascer, quem for próximo à ela ou tiver um facebook, saberá.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Meu relato: Nascimento de Melissa. Cesárea de urgência com 39 semanas.

Iza Mello

Não sabia por onde começar, mas aí vai (vou tentar). Minha gravidez, sempre foi tranquila. Apesar de a pressão arterial ter oscilado muito no final da gestação, não foi motivo para eu tomar medicamentos. Quando eu estava com 38 semanas, fiz uma ultrassonografia à pedido da minha médica, seria apenas uma exame de rotina. Na sexta-feira, dia 25/10, eu fiz. Durante o exame, o médico que realizou o procedimento, disse que eu estava com pouco líquido, mas que eu não deveria me preocupar. Porém, ele pediu para que eu passasse na GO de plantão. Ela olhou a ultra, auscultou os bcfs da minha filha, realizei o cardiotoco, estava tudo ok. Mas no final, ela veio conversar comigo, para me informar que teria que induzir meu parto. Na mesma hora me recusei, pois todos os exames que ela havia feito estavam oks. Na segunda, refiz o exame, e na terça-feira, consegui falar com minha GO , e ela pediu para que eu fosse à maternidade no seu plantão de quinta. Fui. Chegando lá, minha GO comparou todos os meus exames, desde a primeira USG, dos primeiros exames laboratoriais até o último exame realizado. E ela constatou que a minha filha nasceria com um peso, abaixo para a idade gestacional dela (PIG), mas que ela foi clara ao dizer que isso não era nenhum problema. O problema mesmo, era a diferença que estava dando no líquido aminiotico entre a primeira e a segunda ultra que eu realizei. A primeira deu ILA : 40 e a segunda ILA: 192. Então, fui fazer uma terceira ultra. Na terceira ultra, que eu fiz na maternidade mesmo, mostrou realmente que estava com oligodramia extrema, o ILA deu 2.8. Durante a ultra, os batimentos cardíacos da minha filha estavam entre 170 e 180, e o médico virou para minha GO e disse que era taquicardíaca. Sai da ultra, minha GO me mandou fazer o cardiotoco, onde fiquei 40 minutos e nada dos batimentos diminuírem. Quando todo o procedimento havia terminado, minha GO explicou que se fosse apenas a oligo extrema, ela poderia segurar mais alguns dias, eu teria de ir todos os dias à maternidade para fazer o cardiotoco. Mas ela explicou que a situação havia se complicado por conta da taquicardíaca da minha filha, então ela optou pela cesárea de urgência, explicou que se tentasse induzir, a minha filha corria riscos , pois batimentos cardíacos dela aumentariam por conta das contrações. Quando ela me deu a notícia da cesárea de urgência, eu estava no whatsapp com o Raphael, Samira e a minha doula Isadora, eu fiquei sem reação. Isadora, assim que soube, foi imediatamente à maternidade. Enquanto que pelo whatsapp, Raphael e Samira, me ajudavam e também me faziam entender que aquela cesárea era realmente necessária. Lembro de uma mensagem que o Raphael mandou: “ Sem choro, tá? Você fez o que pode”. E só pensava na minha filha. Isadora chegou antes do meu marido, me deu abraço. Ah, como eu precisava daquele abraço. Ficou poucos minutos comigo, pois tive que correr para a sala de cirurgia, porém o pouco tempo que ficou comigo, ela fazia com que eu “aceitasse” o que estava acontecendo. Tomei um banho na maternidade, antes de ir para a sala de cirurgia, e minutos depois meu marido chegou para acompanhar a cesárea. A pior parte pra mim, foi a anestesia. Mesmo com a equipe médica explicando o que estava acontecendo, passo a passo, não foi o suficiente para eu não entrar em pânico quando a anestesia fez efeito. Com 39 semanas, exatas, Melissa nasceu às 16:11, com apgar 1 minuto :9, 5 min: 9, pesando : 2662 e com 46 cm. E mesmo após toda a luta, brigar pelo meu PN e no final ter feito uma cesárea NECESSÁRIA, não me sinto frustrada, menos mãe, menos mulher....Entendi que foi realmente necessário para salvar a vida minha filha, e que se eu aceitasse aquela indução, poderia (quem sabe???) cair numa cesárea desnecessária e ainda seria “cedo” (estava com 38s01d). Lutei, mas infelizmente não deu para ser PN, no entanto, estou muito bem resolvida. Não tento manchar a imagem de um PN, como muitas mulheres que não conseguiram ter um parto normal fazem, só para se sentir bem por terem passado por uma cesárea. Vou defender sempre um PN Humanizado!!!!!!!!!!!!Minha filha está linda, mamando muito e no próximo bebê estarei preparada pelo VBAC,!! Se for a vontade de Deus. Estou feliz . E espero que as pessoas entendam a diferença de uma cesárea necessária, que salva vidas, de uma cesárea ELETIVA, que põe em risco a vida da mãe e do bebê. E EMPODEREM-SE! Eu me considero uma pessoa EMPODERADA, pois lutei pelo meu PN, fui até onde pude, porém foi feita a vontade de Deus. Não adianta apenas quer parto normal, tem que ler, se informar, procurar maternidade humanizada, se possível ( para mim foi FUNDAMENTAL, mesmo no final da gravidez) ter uma DOULA.
A mulher também tem que fazer sua parte.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Mitos sobre o Parto Normal - 2

- Mecônio
É muito comum ouvir de mulheres que passaram por uma cesárea dizerem que o motivo foi: ah, o bebê fez cocô dentro da barriga.

Esse cocô é o mecônio. Na Obstetrícia um dos sinais clínicos que caracterizam que o bebê está em sofrimento é a presença do mecônio no líquido amniótico. Porém, já se sabe que a eliminação do mecônio antes do nascimento ocorre de maneira fisiológica em 10% das gestações, principalmente no termo ou nas gestações pós-termo. Assim, a presença de mecônio pode indicar que o bebê está comprometido e com falta de oxigênio em seus tecidos, mas também é comum nos bebês saudáveis que se encontram em trabalho de parto. Desta maneira, é importante que o profissional conheça em detalhes a fisiologia fetal e as limitações e imprecisões dos métodos utilizados para avaliar a o bem-estar do bebê, para que cesarianas desnecessárias não sejam indicadas.

Foto retirada do site: http://www.clinicadam.com/imagenes-de-salud/9616.html
- Parto normal após cesárea

“Posso ter parto normal depois de cesárea?”
Sim, você pode!
O parto vaginal após uma cesárea é, não só seguro, como desejável, ajudando a evitar os problemas que podem ocorrer por causa de cesáreas de repetição.
Em muitos países desenvolvidos as mulheres são estimuladas a tentar o parto vaginal após uma cesárea prévia. Sob o ponto de vista de morbidade tanto da mãe quanto do bebê, o parto normal é uma alternativa vantajosa se comparada às cesáreas com data e hora marcadas. 
Um dos problemas de se realizar cesárea mais de uma vez é o acretismo placentário (quando a placenta invade a parede do útero mais do que o normal). Isso acontece devido à presença de cicatrizes já existentes no útero.
Uma das preocupações é o risco de ruptura uterina, porém os estudos já realizados mostram que as taxas são muito baixas e que a realização de um parto normal é considerada adequada. Atualmente no Brasil é considerado seguro ter um parto normal após 2 anos da realização de uma cesárea.
É importante destacar que nenhum parto, tanto normal quanto cesárea, é isento de riscos. Entretanto, já foi comprovado que o parto normal é mais seguro, inclusive para mulheres que já passaram por um parto operatório.

Então, não desista! Você pode e você consegue!

Referências:
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticos de Saúde. Área Técnica de Saúde da Mulher. Parto, aborto e puerpério: assistência humanizada à mulher/Ministério da Saúde, Secretaria de Políticas de Saúde, Área Técnica da Mulher. – Brasília: Ministério da Saúde, 2001.
Martins-Costa SH, Hammes LS, Ramos JG, Arkader J, Corrêa MD, Camano L. Cesariana - Indicações. 2002. Projeto Diretrizes. Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia.
Souza AR, Amorim MR. Avaliação da vitalidade fetal intraparto, Acta Med Port. 2008; 21(3):229-240

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Mitos sobre o Parto Normal

Nos dias de hoje basta estar grávida para surgirem milhares de comentários a cerca dos perigos do parto normal. Mas se realmente o parto normal fosse apenas para as mulheres "corajosas" ou para aqueles que "podem" como nossas mãe, avós e bisavós nasceriam? Muitas inclusive de partos domiciliares sobre as mãos de parteiras tradicionais.

Pensando nisso, fizemos uma lista dos mitos que aparecem frequentemente quando o assunto é parto normal. Leia, se empodere e lute pelo seu parto!

- Bebê grande.
Existe um terrorismo a cerca do bebê gigante, muitos dizem que o bebê não conseguirá passar pela bacia da mãe e quando ela tem estatura pequena então... Aí é que não nasce de parto normal mesmo.
Essa é uma das maiores mentiras da face da terra, o grande erro é que desproporção céfalo-pélvica (DCP) não tem qualquer relação com o peso do bebê e sim com a relação entre os diâmetros da cabeça do bebê e a pelve materna. Por isso tanto bebês pequenos como bebês grandes podem ter DCP.
Além disso o diagnóstico de DCP não pode ser feito fora do trabalho de parto, é necessário que a mulher alcance a dilatação total ou que haja parada da evolução da dilatação e aguardar cerca de 4 horas. Se isso não acontecer aí sim pode-se falar em DCP e indicar uma cesárea ou o fórceps dependendo da evolução.
Outro ponto importante: nunca confie no peso que a ultrassonografia calcula, trata-se de um valor ESTIMADO que pode chegar a um erro de até 20%, por esse motivo ela não é confiável para classificar um bebê como grande ou pequeno. A altura uterina e a palpação nos fornece informações mais confiáveis quanto a estimativa de peso.

Fonte: CUNNINGHAM, F. et all. Williams Obstetrics.23nd edition.

- O cordão assassino.
Bebês com cordão enrolado no pescoço é uma das coisas mais normais da Obstetrícia, cerca de 20-40% dos nascimentos acontecem com circular de cordão. O que as pessoas dizem é que o bebê corre o risco de se "enforcar" ou se "sufocar" pelo cordão, mas como isso pode acontecer sendo que ele recebe o oxigênio através do sangue materno e não respira pelos pulmões?
Além disso as desacelerações na frequência cardíaca resultantes da compressão do cordão durante as contrações (denominadas umbilicais ou variáveis) podem ocorrer com ou sem circular, e o diagnóstico é feito através da simples ausculta dos batimentos fetais.

Foto retirada do site: http://www.renataolah.com.br/2012/06/circular-de-cordao.html

- Falta de dilatação.
Nenhuma mulher entra em trabalho de parto se for marcada uma cesárea antes disso, também não temos como afirmar em qual momento isso ocorrerá, até porque cada bebê se torna maduro no seu tempo e é esse o start para o trabalho de parto.
Algumas mulheres desconhecem os reais sinais de trabalho de parto e vão para a maternidade em pródromos, sendo internadas antes da hora e recebendo intervenções desnecessárias e muitas vezes sem sucesso. Por causa dessa sequência de erros ela ganha uma cesariana desnecessária e os profissionais alegam que a indicação foi a "falta de dilatação".

Não deixe ser enganada ;)

Referências:
Clapp JF 3rd, Stepanchak W, Hashimoto K, Ehrenberg H, Lopez B. The natural history of antenatal nuchal cords. Am J Obstet Gynecol. 2003;189: 488-93.

Leia mais sobre o assunto:

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Parto Normal X Cesárea Eletiva

Até meados do século XX, o modelo de parto no Brasil era pautado por atendimento domiciliar, prestado na maioria das vezes por obstetrizes ou parteiras. A partir dos anos 60, houve uma intensificação no processo de medicalização do parto e este passou a ser um evento na maioria das vezes hospitalar, sendo cada vez mais incorporadas metodologias diagnósticas e intervenções. Segundo dados do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (Inamps), em 1970 no Brasil a taxa de cesárea era de 14,6%, aumentando para 25,3% em 1976 e alcançando a taxa de 31% no ano de 1980. A proporção de cirurgias cesarianas continua em ascensão, alcançando 52% em 2010 (Figura 1), sendo que já em 1985 a Organização Mundial da Saúde (OMS) aconselhava taxas de cesáreas entre 10 a 15%.
Figura 1.: Taxa de cesárea no Brasil de 1994 a 2010 por regiões. (Fonte: Secretaria de Vigilância em Saúde / MS)
Mas, o que mudou na cabeça das mulheres em relação ao parto para a realidade obstétrica ter mudado tanto em tão pouco tempo? NADA. Elas continuam preferindo o parto normal. Segundo uma pesquisa do Ministério da Saúde, cerca de 70% das gestantes apontam no início da gestação que desejam ter parto normal. No entanto, o que vemos no final das contas é bem diferente do esperado, principalmente se avaliarmos os números da rede privada: cerca de 80% dos partos são cesáreas. Sabendo disso, a culpa recai na atenção ao pré-natal, o principal evento que ocorre nesse meio tempo. Muitos profissionais desestimulam, direta ou indiretamente, o parto normal durante o atendimento pré-natal, invertendo os números da preferência da via de parto no final da gestação e resultando no triste cenário atual.
Os maiores medos que as mulheres alimentam durante a gestação sobre o parto normal é a dor da contração, a vagina "frouxa", e a insegurança do parto normal. Três grandes mitos! OK, a dor pode não ser um mito. Parto normal dói. Mas já repararam que todas as "passagens" que fazemos na vida doem, de um jeito ou de outro? A passagem de ser bebê para ser criança dói. Vai dizer que não lembra o primeiro dia na escolinha? A passagem de ser criança para ser adolescente dói. É tanta revolta, que nos revoltamos com nós mesmos. E, seguindo a lógica, a passagem de ser mulher pra ser mãe dói. E não é só dor física, quem dera fosse! Dói as mágoas. Dói as desilusões. Dói a alma. É um rito de passagem, e ele é a chance de enfrentarmos nossos medos, nossos leões, e conseguir vencer mais essa etapa da vida com louvor, como as outras tantas.
O segundo grande mito, a tal da vagina "frouxa", é um dos temas mais debatidos pela comunidade obstétrica. Muitas mulheres (e profissionais) acreditam que a passagem do bebê pelo canal vaginal durante o parto causa danos à musculatura perineal - músculo ao redor da vagina e ânus - e interferem na vida sexual da mulher. Na verdade, a maioria dos danos causados nessa região durante o parto é devido à má assistência do mesmo, com intervenções médicas desnecessárias. Aqui cabe a episiotomia, o tal corte no períneo para aumentar o diâmetro da vagina e "facilitar" a saída do bebê, evitando lacerações (lesão que ocorre naturalmente na pele e/ou musculatura). A episiotomia corta pele e músculo. A maioria das lacerações, quando elas ocorrem, atingem apenas a pele. Já conseguimos ver vantagem, certo? Além disso, quando o músculo é cortado, a reabilitação de sua função é bem difícil. Evitando esse tipo de atendimento, já estamos com meio caminho andado para o retorno muscular da vagina. A outra metade é feita ao evitar as lacerações na hora do parto realizando exercícios para fortalecimento da musculatura perineal durante a gestação. Esses exercícios devem ser feitos durante toda a vida e por toda mulher, pois o fortalecimento dessa musculatura previne outras complicações frequentes em mulheres, como o prolapso genital, ou a famosa "bexiga caída".
O terceiro mito é a segurança do parto. Algumas mulheres acreditam que a cesárea, uma cirurgia de alto porte, é mais segura do que o parto normal. Mito, mito, mito, mil vezes mito! Embora a cirurgia cesariana tenha surgido com o intuito de salvar vidas (e o faz diariamente), quando esta é realizada sem uma real indicação (eletiva), ou seja, quando a cesárea é feita fora de situação de emergência, há o efeito contrário. Recentes pesquisas mostram que as altas taxas de cesárea eletiva estão associadas com aumento da mortalidade materna e do recém-nascido. Além do aumento da mortalidade, as cesarianas em excesso estão associadas com maior necessidade de tratamento pós-natal com antibióticos, mais transfusões de sangue, menor frequência e duração da amamentação, maior tempo de internação hospitalar da mulher após o parto e maior índice de admissão de recém-nascidos para tratamento intensivo.
Para uma breve representação do quadro citado acima, um levantamento pela Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da saúde, nos aponta que o risco relativo para morte materna entre cesáreas é de 3,5 vezes maior, quando comparada ao parto normal. Já infecção puerperal o risco é de 5 vezes maior nas cesáreas, quando comparada ao parto normal.
Em relação à prematuridade, uma das principais causas de morte de recém-nascidos, a Secretaria de Vigilância em Saúde aponta que, a partir 2000, há um aumento da prematuridade em crianças nascidas de cesáreas e uma tendência à diminuição da prematuridade em crianças nascidas de parto normal.
O parto normal ainda é a melhor via de nascimento, recomendada pelo Ministério da Saúde e pela Organização Mundial da Saúde. Além de menores índices de mortalidade e complicação materna e de recém-nascidos, o parto vaginal resulta em melhor e mais rápida recuperação da mulher pós-parto e maiores chances no sucesso da amamentação. A figura 5 apresenta uma breve comparação entre a cirurgia cesariana e o parto vaginal.
Com esses dados e muitos outros que uma rápida busca na literatura nos fornece, é possível concluir que a cirurgia cesariana sem uma real indicação, ao invés de melhorar os resultados maternos e dos recém-nascidos, como esperado, resulta em sérias complicações para a saúde das mulheres e dos bebês. Para conseguir um parto à sua escolha, opte por uma equipe de confiança e viva a experiência do nascimento como sonhada.

Figura 5.: Vantagens do parto normal. (Fonte: Ministério da Saúde)
Para saber mais sobre as indicações reais e fictícias de cesárea, clique aqui.
(Neste texto foi utilizado a denominação “taxa” para se referir à proporção de cesáreas.)

Referências:
Secretaria de Vigilância em Saúde, MS (2011). As cesarianas no Brasil: situação no ano de 2010, tendências e perspectivas. Disponível em: http://portalsaude.saude.gov.br/portalsaude/arquivos/pdf/2013/Fev/21/saudebrasil2011_parte2_cap16.pdf 
Villar J, Valladares E, Wojdyla D, Acosta A et al (2006). Caesarean delivery rates and pregnancy outcomes: the 2005 WHO global survey on maternal and perinatal health in Latin America. Lancet 2006 Jun 3;367(9525):1819-29. 
Villar J, Carroli G, Zavaleta N et al (2007). Maternal and neonatal individual risks and benefits associated with caesarean delivery: multicentre prospective study. BMJ 2007;335:1025.

domingo, 27 de outubro de 2013

Líquido Amniótico e ILA

Como prometido, um post sobre Liquido Amniótico, sua importância e algumas técnicas de como calcular.

O líquido amniótico tem grande importância no crescimento, no desenvolvimento e nas funções fetais, permitindo o deslizamento das partes fetais entre si e entre o feto e as membranas, favorecendo o desenvolvimento dos sistemas locomotor e respiratório, além de auxiliar na termorregulação fetal, prevenção da compressão do cordão umbilical e na proteção do feto contra traumas, como um amortecedor natural (Costa et al., 2005 e Kobayashi, 2005).
A cada hora, cerca de 3.600 ml de líquido amniótico são trocados entre a mãe e o feto, e essa troca depende do bem-estar fetal, da saúde materna e da placenta. O volume de líquido considerado normal varia de acordo com a idade gestacional, em torno de 250ml na 16ª semana, 800ml na 28ª semana, 1.000ml na 34ª semana e, após a 34ª semana, declina progressivamente, alcançando cerca de 800ml na 40ª semana de gestação (vide tabela abaixo). Vale lembrar que esses valores podem variar um pouco em cada mulher. (Costa et al., 2005).

Table 21-1. Typical Amnionic Fluid Volume
Weeks' Gestation
Fetus (g)
Placenta (g)
Amnionic Fluid (mL)
Percent Fluid
16
100
100
200
50
28
1000
200
1000
45
36
2500
400
900
24
40
3300
500
800
17
From Queenan (1991), with permission.


O volume do líquido também se relaciona com o peso fetal e placentário. Os fetos pequenos para a idade gestacional (PIG) geralmente apresentam redução do líquido amniótico, enquanto os grandes para a idade gestacional (GIG) geralmente apresentam volumes aumentados. Em casos onde as membranas estão intactas (não "estourou" a bolsa), o oligodrâmnio (pouco liquido) pode indicar algumas complicações em que o débito urinário do feto fique baixo, como má formações do sistema urinário fetal ou doenças relacionadas a insuficiência placentária, como o retardo de crescimento intra-uterino (RCIU), a hipertensão gestacional e a gravidez pós-termo. O polidrâmnio (muito líquido), por sua vez, também pode ser causado por vários distúrbios fetais e maternos, principalmente as malformações do trato gastrintestinal e o diabetes mellitus. (Costa et al., 2005).


Diagnóstico 


1. Métodos subjetivos:

-Verifica-se a Altura Uterina em associação com a idade gestacional e durante a ultrasonografia, dependendo da experiência do profissional. Em caso de polidrâmnio, há dificuldade na palpação e na ausculta dos batimentos cardíacos fetais.

2. Métodos semiquantitativos:
-Técnica da medida do maior bolsão vertical (MBV) Mede o maior bolsão vertical, livre de cordão e partes fetais, visualizado por meio da ultra-sonografia. Considera-se normal quando o maior bolsão mede entre 20 mm e 80 mm;



Retirado de COSTA, 2005 

- Índice do líquido amniótico (ILA) – Esse método utiliza a medida do maior bolsão vertical em cada um dos quatro quadrantes do útero. As medidas de cada bolsão devem estar livres de alças de cordão e partes fetais. Bolsões muito pequenos, menores de 5 mm, não devem ser medidos. A curva de normalidade de ILA para cada idade gestacional determina que o ILA maior que o percentil 95 indica polidrâmnio e menor que o percentil 5 indica oligoidrâmnio;

ÍNDICE DE LÍQUIDO AMNIÓTICO EM CENTÍMETROS 

- Técnica da medida bidimensional do maior bolsão (MBMB) – Esta técnica multiplica a medida do maior diâmetro vertical pelo maior diâmetro horizontal. O bolsão escolhido deve estar livre de alças de cordão e partes fetais. Os valores de normalidade são definidos entre 15,1 cm² e 50,0 cm.
Retirado de Kobayashi, 2005 

O valor clinico da ultra-sonografia não é estimar o valor absoluto de líquido amniótico, mas de identificar quais pacientes encontram-se fora dos valores de normalidade para a idade gestacional e no seguimento dessas pacientes (Kobayashi, 2005).

Condutas:
O tratamento para o oligoâmnio varia de acordo com a sua causa. Se a causa for má formação ou doença renal do feto, indica-se conduta invasiva em centros médicos especializados; em casos de diminuição da função placentária, o repouso é uma das terapias indicadas, antes de se indicar a indução do parto; Já na rotura prematura de membrana (a bolsa "estourar" antes da hora), indica-se repouso e ingestão de líquido em grande quantidade (3-4L por dia). É importante salientar que é necessário um maior acompanhamento para avaliar a condição do feto.
Para o polidrâmnio, é indicado o esvaziamento da bolsa, procedimento realizado intrahospitalar, no qual é realizado uma punção e retira-se o líquido aos poucos. Também pode-se associar terapia medicamentosa. (Ministério da Saúde, 2000)
Como já dito, alterações são comuns e variam em cada mulher e seus hábitos. O ideal é realizar o pré-natal adequadamente e pedir sempre informações para um profissional apto, pois diversos casos podem ser solucionados com ingestão de água ou retirada de líquido.



ÍNDICE DE LÍQUIDO AMNIÓTICO EM MILÍMETROS 



CUNNINGHAM, F. et all. Williams Obstetrics.23nd edition. .New York McGraw –Hill -Dark A Degenhardt W (2007)
COSTA, Fabrício da Silva; CUNHA, Sérgio Pereira da; BEREZOWSKI, Aderson Tadeu. Avaliação prospectiva do índice de líquido amniótico em gestações normais e complicadas. Radiol Bras, São Paulo , v. 38, n. 5, Sept. 2005
GILBERT, S.F. - Developmental Biology. 7ª edn. Sinauer Associates March, 2003
Ministério da Saúde, Gestação de Alto Risco / Secretaria de Políticas, Área Técnica da Saúde da Mulher. _ Brasília : Ministério da Saúde, 2000.
KOBAYASHI, Sergio. Avaliação ultra-sonográfica do volume do líquido amniótico.Radiol Bras, São Paulo , v. 38, n. 6, Dec. 2005 .MOORE, Keith L; PERSAUD, T. V. N. Embriologia clínica. 8ª. ed Rio de Janeiro: Elsevier, 2008.
SAWTER, T.W. – Langman: Medical Embryology. 11ª ed. Lippincott Williams & Wilkins, March , 2006